Lânguida e tranqüila tarde de sábado, ia eu para o Terminal de Vila Velha, deliciando-me com a formosa paisagem da Ilha de Vitória. Meio fartavam-me com suaves raios de Sol entre o tímido Vento Sul, meio fartava-me com o frescor das folhas outonais, levantadas em torvelinho, ora pelo brincar veloz dos automóveis, ora pelo brincar singelo deste Vento Sul que, confesso, não percebe-lo tão ousado como outrora em nossa ilha. Mas, se tornados em São Paulo são prenúncio de mudanças climáticas no Brasil, devo contentar-me que o domado Vento Sul não desfaça os pudores das damas em saias e que tantas delícias visuais nos levaram a acreditar que o antigo Vento Sul afinal, não era tão incômodo assim.
Mas, se algumas coisas mudam, outras teimam em permanecer como antes. E se algo puder servir como exemplo disso, sem dúvida alguma não posso furtar-me em mencionar os buracos da estrada de Capuaba, que vorazes e velozes, teimam em correr dentes nas rodas mais afoitas, até que enfim, após numerosos solavancos, algumas borrachas magoadas, molas tontas e dezenas de parafusos soltos, estanca-se o motor rancoroso para, enfim, trabalhar.
É natural esperar que após caminho absorto nesses pensamentos, que tranqüilo e relaxado entrava para o cais quando um folhetim distribuído na portaria do terminal, que um dia já foi porto, chamou a minha atenção. Assinava esse folhetim uma entidade chamada ISPS e TVV, onde eram enumerados alguns fatos ocorridos durante o período de um ano. Era, portanto, a época do aniversário de implantação do tal ISPS. Embora neste tal período eu tenha sentido a brumosa existência de tal entidade, não me recordo de ter sido comunicado com eficácia do nascimento dessa “criança”. Porém, como a inocência infantil, que evoca uma festividade dessa natureza, eu em cuidados quase paternais, tomei o folhetim nas mãos para com olhos ternos, ler seu conteúdo.
Conta o folhetim que o ISPS é um código internacional para proteção de navios e instalações portuárias, elaborado pela IMO, da ONU, e aprovado pelo Governo brasileiro em forma de lei. Entre os principais alvos de sua conduta protecionista que são navios, portos e terminais, não me enxerguei em nenhum momento como protegido, mas como ser passível de transportar algum artefato belicoso meio aos meus lápis, desenhos, disquetes e molambos fartos de graxa e ferrugem.
Com efeito, afirma o terminal ter apreendido no período de março de 2004 a abril de 2005, a impressionante quantia de 2555 armas em sua entrada; uma péssima convivência e exemplo a um infante (ISPS) de apenas um ano de idade. A grandiosidade do número nos coloca a raciocinar sobre. Suponhamos que nos 365 dias do ano o terminal tenha operado absolutamente em todos. Concluo então que o terminal apreenda todos os dias uma média de sete armas em suas portarias; um número deveras preocupante! Como freqüentador quase diário desse terminal, absolutamente surpreso devo concluir: - Como nós somos belicosos!
Mas o raciocínio não deve parar por aí. Tomemos que 500 estivadores, 500 arrumadores, 500 motoristas de caminhão, 500 funcionários do terminal, 400 marinheiros, 100 conferentes e 50 vigias e consertadores freqüentem com regularidade o terminal. Pode ser que esta seja uma especulação bem grosseira, mas, isso significaria que numa faina normal de trabalho, em três ternos com sete homens, somaríamos vinte e um homens de estiva, mais dez conferentes e um técnico de bordo e um vigia, totalizando trinta e três homens a bordo. Suponhamos que em terra atendam seis motoristas por cada terno, mais três controladores, três guindasteiros e dois empilhadeiristas (um para cada navio). Somam aí vinte e seis trabalhadores. Mas não é só; dois castanheiros por terno adicionam mais seis almas. Nas áreas afastadas, concluímos que em três transtêiners, três empilhadeiras de grande porte (GEP) se ajuntam seis pessoas. Assim, ao pátio e ao navio temos um total de setenta e um trabalhadores. Não posso precisar quantas pessoas trabalham nos escritórios, mas catapultemos esse número para cem, durante um período bem convencional de operação. Aos quatro períodos de trabalho teremos uma estimativa grosseira de cerca de quatrocentos homens nas dependências desse terminal.
Ora, se observarmos este contingente nas categorias chegaremos a conclusão que a partir de pelo menos dois dias, quase todas as pessoas retornarão ao terminal do TVV. Bem lembrado que estes são os trabalhadores contumazes, visto que existem trabalhadores nas categorias que preferem centrar seus embarques num determinado porto. Mesmo assim, se somarmos todo o contigente veremos que esse número não passará de três mil pessoas, com as pessoas se revezando, no máximo, a cada três dias. Isso dá quase uma arma por pessoa! E sete vezes por dia! Em números práticos, a cada duas pessoas que freqüentam o TVV, uma já teve arma apreendida e a outra esteve muitíssimo suspeita! Inacreditável como nós somos belicosos!
Observando com mais atenção o folhetim distribuído na portaria, pude ver que o material apreendido foi composto de facas, facões, martelos, canivetes, estiletes, pés-de-cabra, serrotes, punhais e machadinhas. Intrigado, reflito: - Facas e punhais, tudo bem; podem até ser armas! Mas ao que me consta, facões, martelos, canivetes, serrotes, pés-de-cabra e machadinhas, em primeiríssima mão, são ferramentas e não armas. E a que eu saiba, estilete é mero material de escritório.
Assim concluo duas coisas impressionantes! Ou realmente nós trabalhadores somos muito belicosos, ou o TVV vai ampliar seu ramo de atuação e vai abrir uma diversificada cutelaria! E isso carece de uma primorosa investigação, para um futuro investimento em ações, já que o aço de ferramentas de corte (Ôps! Armas...) é sempre um aço muito primoroso e elaborado. Fica uma pergunta no ar! Resta saber qual a quantia o TVV pagará a cada ferramenta (Ôps! Arma...) apreendida, para se consolidar como politicamente correta. Tal e qual o Estado brasileiro, indenizando a cada arma entregue pelo cidadão, na campanha do desarmamento.
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