Ministro vem a Santos na semana seguinte à sua posse
Texto publicado em 10 de Maio de 2007 - 05h48
Pedro Brito, 56 anos de idade, que tem graduação em Economia e mestrado em finanças de empresas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e cursos na área de tecnologia em outros países, tomará posse na Secretaria Especial de Portos no dia 15 de maio, às 12h, em Brasília. Ele estará no Porto de Santos, para tomar ciência de toda a situação do maior porto da América Latina, já na semana seguinte à sua posse.
Com 25 anos de experiência na vida pública, ocupando os mais diferentes cargos, como superintendente financeiro do Banco do Nordeste, presidente do Banco do Estado do Ceará, secretário da Fazenda do governo Ciro Gomes e ministro da Integração Nacional no governo Lula, o novo ministro quer mudar a “cara” dos portos brasileiros: “precisamos ter portos mais modernos, menores custos de operação portuária, menor tempo de espera dos navios nos portos e que o País possa crescer muito mais ainda o seu comércio exterior”. Para isso, ele defende uma gestão profissional para os portos.
Segundo o ministro, o presidente Lula pediu que se dê ao Porto de Santos uma condição operacional com padrão mundial. Na lista de prioridades do chefe da nova Secretaria Especial de Portos, está resolver de vez a questão da dragagem do Porto de Santos, não só a da manutenção mas a de profundidade.
Nessa entrevista exclusiva ao site PortoGente, Pedro Brito falou em garantir condições seguras para os investidores privados; na nova diretoria da Codesp, que terá um perfil profissional com a utilização, inclusive, de funcionários de carreira da empresa; em garantir melhores condições de trabalho para o empregado, com treinamento e capacitação permanentes; em realizar concurso público nas companhias docas.
PortoGente – Qual a relação que o senhor faz da sua nova função com a sua experiência como ministro da Integração Nacional? Quando o senhor esteve à frente do ministério houve uma eficiência na gestão orçamentária ao ser utilizado 93% dos recursos empenhados. O Porto de Santos só utilizou 11% dos recursos disponíveis. A eficiência mostrada no ministério da Integração Nacional será realidade também na Secretaria Especial de Portos?
Pedro Brito – Sem dúvida. Na verdade, a decisão do presidente Lula de criar uma secretaria focada na questão portuária foi uma decisão política muito importante no sentido de fazer a transformação que o sistema portuário brasileiro precisa para se igualar ao resto do mundo moderno em relação às questões portuárias que já foram resolvidas. E naturalmente que a execução orçamentária refletindo a execução dos projetos, das obras de infra-estrutura necessária para que os portos se modernizem, será um ponto principal da nossa meta de atuação. E aquilo que nós conseguimos no Ministério da Integração Nacional, executando praticamente todo o orçamento, é o que nós queremos fazer em relação à secretaria de portos. Não tem nenhum cabimento com a necessidade gigantesca por investimentos públicos na infra-estrutura portuária, com recursos garantidos, e essa infra-estrutura não ser feita. Então, certamente quando o presidente Lula definiu criar uma secretaria focada nos portos a principal missão é exatamente essa, fazer com que os investimentos saiam do papel, fazer com que os investimentos aconteçam. E, com isso, se possa ter portos mais modernos, menores custos de operação portuária, menor tempo de espera dos navios nos portos e que o País possa crescer muito mais ainda o seu comércio exterior. Nos últimos quatro anos, o comércio exterior brasileiro cresceu a uma média de 21% ao ano e isso pode crescer muito mais ainda. E nós entendemos que o comércio exterior é a melhor forma para ajudar milhões de pessoas a sair da pobreza em países emergentes como o Brasil. E o veículo mais importante de desenvolvimento econômico que pode auxiliar o crescimento do comércio exterior é o porto moderno, bem equipado, bem estruturado, com pessoas treinadas e motivadas para o trabalho. Essa é a nossa missão.
PortoGente – Por onde o senhor vai começar o seu trabalho? E como será o seu contato com todos os atores que atuam no porto, de empresários a trabalhadores?
Pedro Brito – É fato concreto, e eu sei disso como gestor público, que nós vamos ter de construir alianças importantes com todos os setores, com a iniciativa privada, com os empresários que dependem dos portos para suas exportações ou importações, fazer aliança com os empregados das companhias docas que são, no final das contas, os responsáveis pelo sucesso do empreendimento, valorizar profissionalmente essas pessoas. Inclusive, promovendo o treinamento necessário para a qualificação desse pessoal dentro dos portos. Tem de ser uma relação construtiva e de alianças e, claro, tudo isso presidido por uma gestão competente, profissional, treinada, conhecendo o mundo inteiro do ponto de vista da realidade portuária. Eu entendo que os gestores das docas de Santos, por exemplo, que é disparado o porto mais importante do Brasil, têm de ser um corpo diretivo que tenha esse perfil. Um perfil executivo, um perfil de conhecimento e domínio do negócio portuário, que conheça a atuação dos portos do mundo inteiro e que possa, portanto, colocar o Porto de Santos em igualdade de competição com qualquer porto do mundo.
PortoGente – Quando o senhor coloca esse perfil profissional poderia ser também do próprio quadro de carreira da Codesp?
Pedro Brito – Inclusive do quadro de carreira da própria Codesp. Eu acho que dentro da Codesp existem pessoas com esse perfil...
PortoGente – Que pode ocupar a nova direção da Codesp?
Pedro Brito – Que poderão ocupar postos de diretoria, de superintendência, de gerência e que se possa inclusive renovar o time da Codesp com novos concursos públicos, com treinamento constante.
PortoGente – Existe a meta da realização de concurso público na Codesp?
Pedro Brito – Eu acho que para que se tenha um quadro renovado, nós temos, naturalmente, ter essa meta do concurso público, porque dentro de uma empresa pública não há outra maneira de você oxigenar o time a não ser fazendo concurso público. E a outra maneira, que nós também queremos investir, é no treinamento das pessoas, tanto dentro do País e, se for necessário, fora do País.
PortoGente – O senhor já disse que terá um canal direto com o presidente Lula para discutir as questões portuárias. Nos últimos dias, inclusive, durante a elaboração da MP 369, o senhor deve ter falado bastante com o presidente. Ele falou alguma coisa específica do Porto de Santos?
Pedro Brito – A preocupação do presidente Lula é tornar o Porto de Santos da maior capacidade operacional possível ao menor custo que se possa ter para ser o vetor de desenvolvimento do País. Nós sabemos que o Porto de Santos é responsável por cerca de 35% da movimentação de carga e isso pode crescer muito mais, na medida que o porto de tornar mais eficiente. E essa é a determinação do presidente é que se dê ao Porto de Santos uma condição operacional padrão mundial.
PortoGente – Nesse sentido, ministro, quais os principais gargalos dos portos brasileiros, e em especial ao Porto de Santos? Essa situação estaria relacionada, por exemplo, ao atual modelo de gestão das Autoridades Portuárias?
Pedro Brito – Um dos gargalos, naturalmente, diz respeito à qualidade de gestão. Nós não temos dúvida quanto a isso. A formação do quadro, a própria maneira de se montar as diretorias das companhias docas, então, é fazer uma mudança na forma de gestão isso é vital. Agora claro que, além disso, os investimentos necessários que precisam ser feitos em infra-estrutura portuária também responsável pela falta de maior eficiência dos Portos. E aí não é só dentro dos portos. Eu não estou falando só de dragagem, só de equipamentos, eu estou falando inclusive dos acessos. Um porto moderno é um complexo de investimentos dentro e fora do porto. Você tem de ter acessos que possibilitem a não formação de filas como se observa, por exemplo, nos principais portos brasileiros. Isso é inconcebível num porto moderno. A mesma coisa em relação aos acessos ferroviários. É preciso que se tenha pátios de estacionamento fora da cidade para não haver uma interferência do porto no dia-a-dia dos habitantes das cidades. Então, o conjunto de investimentos que precisa ser feito vai dar essa condição operacional que se quer para os portos. Inclusive dá condição para que os portos possam atrair investimentos privados. Nós sabemos que o governo não tem uma capacidade de investimento para, isoladamente, dotar todos os portos brasileiros de todas as condições que são necessárias. Mas, uma vez, que a iniciativa privada se sinta confortável e veja como a partir dessa decisão do presidente Lula de se ter uma estrutura específica dos portos e veja nisso uma oportunidade de negócio, naturalmente a iniciativa privada vai comparecer fazendo os investimentos adicionais necessários.
PortoGente – O senhor falou em investimento privado, quais os fatores que o senhor vai priorizar para atrair, também, os investimentos internacionais, tendo em vista que não foi realizada nenhuma licitação e as concessões de áreas, nos últimos anos, foram realizadas de forma litigiosa?
Pedro Brito – Nós vamos atacar imediatamente esse problema. Nós temos de que, em primeiro lugar, fazer essa mudança de gestão portuária de uma maneira geral. Temos de rever o marco regulatório para dar segurança ao investidor privado, naquilo que ele precisa ter segurança para poder fazer o investimento e temos de comparecer, também, com os investimentos públicos que não podem ser privatizados.
PortoGente – Por exemplo...
Pedro Brito – Por exemplo, a questão dos acessos portuários, dos estacionamentos, dos acessos ferroviários, da dragagem dos portos, do calado que é necessário ter o porto para poder operar em padrão mundial, então, é um conjunto de iniciativa que o governo tem de ter para dar segurança ao investidor privado, inclusive com relação ao marco regulatório para que ele se sinta confortável para investir.
PortoGente – O senhor falou na importância da dragagem. Podemos entender que a questão da dragagem, para mudar a dimensão do Porto de Santos, ou seja, para garantir profundidade e, conseqüentemente, receber grandes navios, que é a tendência mundial do comércio marítimo, será finalmente resolvida?
Pedro Brito – Veja, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) prevê um valor de um bilhão e duzentos milhões de reais para investimento em dragagem nos portos brasileiros até 2010. Na minha opinião, esse valor é um valor mais do que suficiente para dotar os principais portos brasileiros de calados que se precisa ter para operar com quaisquer navios. E claro que uma das nossas prioridades é a questão do Porto de Santos. Inclusive, se for o caso, mudando o sistema de concorrência pública que existe hoje, se for necessário mudando o marco regulatório também para que se possa um processo de concorrência pública que, eventualmente, dê concessão para que empresas possam fazer a dragagem de manutenção e também fazer dragagem de aprofundamento para acrescer o calado que o Porto de Santos precisa. Eu acho que a questão da dragagem é até menos crítica do que as demais que se resolve com processo de licitação transparente, que se resolve com recursos que já estão inclusive no PAC.
PortoGente – Nos últimos quatro anos, alguns portos brasileiros, como o de Santos, não conseguiram realizar os investimentos autorizados. O deputado federal Ciro Gomes disse, recentemente ao nosso site, que o Porto de Santos era um desastre em eficiência e moral. O senhor avalia necessário fazer um choque de gestão no Porto de Santos?
Pedro Brito – Eu acho que a gestão é o princípio de todo o processo de eficiência. Se você tiver uma gestão profissional, uma gestão de pessoas que tratem o Porto de Santos como uma grande empresa que ele é, que tratem o Porto de Santos como um negócio que tem de ser, eu não tenho nenhuma dúvida que nós teremos, num breve espaço de tempo, uma companhia inclusive lucrativa. Porque o Porto de Santos, como um grande porto e negócio, certamente tem toda a condição objetiva de gerar resultados positivos em pouco tempo a partir de uma gestão profissionalizada.
PortoGente – Sabemos que os portos não são feitos apenas pelos donos do dinheiro, mas também pela mão-de-obra, pelo trabalhador. A Secretaria Especial de Portos também vai dar atenção aos problemas enfrentados pelos portuários, como a falta de segurança? No Porto de Santos, por exemplo, em menos de dois meses, neste ano, ocorreram dois acidentes fatais.
Pedro Brito – Sem dúvida nenhuma. Como eu disse no início dessa nossa conversa, Rosângela, eu considero que a valorização profissional dos empregados, inclusive com concursos públicos, e principalmente o treinamento são condições essenciais para que se consigam um objetivo. Você não pode ter resultados positivos se você não tiver um corpo de funcionário treinado, capacitado e motivado. E essa motivação vem dessa valorização profissional. E no momento que o corpo funcional se sentir prestigiado e sendo dirigido por uma equipe competente, eu não tenho nenhuma dúvida que a resposta será imediata.
PortoGente – Como o senhor vê a proposta do Governo do estado de São Paulo de estadualizar o Porto de Santos?
Pedro Brito – Essa proposta não faz sentido nesse momento em que o presidente Lula decidiu criar uma estrutura específica para gestão portuária. Na verdade, a proposta poderia eventualmente analisada num contexto em que não tivesse sido criada a Secretaria. Com a criação da Secretaria essa proposta não tem cabimento.
PortoGente – Um empresário do Porto de Santos pediu para lhe fazer a seguinte pergunta: Como o senhor conseguirá cumprir a promessa de visitar o Porto de Santos uma vez por semana?
Pedro Brito – É muito fácil, pegando o avião uma vez por semana para o Porto de Santos. Essa é a parte mais fácil.
PortoGente – Então o senhor vai estar uma vez por semana no Porto de Santos?
Pedro Brito – Pelo menos no início para que eu possa tomar ciência de tudo, ter profundidade dos problemas, atacar os problemas mais importantes. Eu tenho de fazer isso, faz parte do meu trabalho.
PortoGente – O senhor é casado, tem filhos?
Pedro Brito – Eu sou casado e tenho quatro filhos.
PortoGente – Como o senhor concilia tarefas profissionais e a família?
Pedro Brito – Eu sempre procuro dedicar o meu tempo livre para a minha família. Eu não tenho hábitos de sair com amigos, sozinho. Quando eu não estou no trabalho, eu estou com a família.
PortoGente – Como o senhor relaxa?
Pedro Brito – Trabalhando.
PortoGente – Além de trabalhar, o que mais o senhor gosta de fazer?
Pedro Brito – Eu gosto de esporte, gosta de praticar corrida. Eu tenho assim como hábito correr diariamente. E corro bastante. Eu corro cerca de dez quilômetros por dia e, inclusive, eu estou me preparando para a meia maratona do Rio de Janeiro, em agosto.
PortoGente – O que tira o senhor do sério?
Pedro Brito – É não conseguir as metas, os objetivos, não conseguir realizar aquilo que planejo, não mostrar o serviço para o qual fui designado para fazer.
PortoGente – Qual a melhor forma de viver e trabalhar?
Pedro Brito – Eu acho que é essa forma de se manter uma conversa franca e aberta com todos, de uma comunicação permanente com os funcionários, com as pessoas, com a mídia, os políticos, os empresários.
Fonte: PortoGente - 10 MAI 07
|